Autor: ILSA

  • Toussaint L’Overture, o libertador traído

    Toussaint L’Overture, o libertador traído

    O título de Libertador Traído serve para quase todos os libertadores das Américas. Bolívar, San Martin, Hidalgo, Morelos, Artigas, e até mesmo os menos libertadores, como Miranda e Tiradentes, foram traídos antes de ocupar o poder independente. O adjetivo não pode ser atribuído diretamente ao Dr. Francia, a quem as oligarquias não gostam de chamar de libertador porque foi um dos raros, senão o único, que libertou de fato seu país e quando morreu, de causas naturais, entregou ao sucessor um Paraguai livre e americano, falando guarani, sem fome nem subserviência. Talvez se possa incluir na categoria de traição a aliança dos três vizinhos, Argentina, Brasil e Uruguai apoiados e incitados pela Inglaterra, para uma guerra colonial à morte, mas, então, a traição já não foi ao Dr. Francia, mas ao povo paraguaio.

    A traição à Toussaint L’Overture, porém, o levou a morte em 7 de abril de 1803, há 222 anos. Momento oportuno para lembrá-lo, reverenciá-lo, homenageá-lo porque as oligarquias tampouco gostam de o incluir no rol de libertadores e de herói das Américas. Quem o traiu, porém, não foi um de seus pares na guerra de libertação, como ocorreu com Bolívar, San Martín e Artigas, quem o traiu foi Napoleão Bonaparte, o general do liberalismo. L’Overture foi o primeiro Libertador das Américas a conquistar a liberdade para seu país e pagou com a própria vida tal ousadia. Por ter sido escravizado, tinha muito claro o significado da palavra liberdade e a necessidade de lutar por ela. O seu erro foi acreditar que a revolução francesa, ao proclamar a liberdade como o maior dos bens de uma sociedade, estava falando da mesma liberdade que ele e os africanos do Haiti reivindicavam. Era e não era! Os próprios franceses não tinham clareza, embora Napoleão soubesse que não era. Uma parte dos revolucionários da metrópole acreditavam que liberdade era o oposto à escravidão, mas outros, oportunamente adeptos da ilustração racista expressavam a anátema de que o Code Noir era uma lei trabalhista aplicável para gentes não francesas, de pele escura, nos territórios da outra margem do Atlântico, afinal, como acumular riqueza sem trabalhadores grátis?

    Enquanto os franceses tinham dúvidas do alcance da liberdade durante os debates da Assembleia Nacional em Paris, em 4 de agosto de 1789, os escravizados do Haiti tinham certeza de que a escravidão não era compatível com a liberdade proclamada. Demoraram para receber as notícias e precisaram dois anos para colocá-la em prática. Foi assim que em agosto de 1791, na Ilha de Saint Dominique, a mais próspera colônia francesa, as multidões de escravizados, liderados por Toussaint L’Overture, amanheceram quebrando os grilhões e declarando o fim da escravidão porque todos os homens e todas as mulheres eram livres como sempre deveriam ter sido, não só porque assim deveria ser, mas porque estava expresso na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão com vigência em toda a extensão do território francês e proclamada já há dois anos na metrópole do país que habitavam. A queda da Bastilha não poderia significar coisa diferente que o rompimento das correntes que aprisionavam os africanos no Haiti. As notícias demoravam a atravessar o Atlântico e eram bem escondidas pela oligarquia branca, donos das terras, plantações e gentes nas Antilhas.

    De fato, Toussaint L’Overture havia descoberto que na Metrópole, Paris, o povo havia feito uma revolução e que a sociedade a ser construída seria livre, igual e fraterna, por isso não hesitou em hastear a bandeira da Revolução e enfrentou, de armas na mão, quem resistisse. Houve resistência, mas os proprietários de terras e gentes, brancos conscientes do que se passava em Paris, fugiram ou morreram, os mulatos livres e os crioulos brancos, capatazes, burocratas, seguiram os fugitivos para Cuba ou San Luis, Luisiania, ou aderiram, intimidados e incrédulos, ao movimento de libertação negro. Dois grandes romances latino-americanos contam essa história com poesia e encanto, O reino deste mundo, do notável cubano Alejo Carpentier e A ilha sob o mar, de Isabel Allende. Ambos contam a história trágica do desespero da guerra, mas não contam a história de Toussaint L’Overture, nem de sua traição.

    Dois outros livros também indispensáveis numa biblioteca da América Latina contam a grandeza do Libertador. O primeiro é um primoroso estudo da rebelião, dos enganos dos escravizados com a revolução francesa e o papel das massas nos movimentos revolucionários, Os jacobinos negros, de Cyril Lionel Robert James, nascido em Trinidad y Tobago e um dos mais importantes intelectuais negros das Américas. James escreveu cada frase baseada em seguras fontes históricas originais e primárias, é um livro de historiador rigoroso, mas tem a beleza de um romance e a dureza de um libelo, não deve nada, em termos literários, a Carpentier e Isabel Allende. O outro livro não foi escrito por americano, mas por quem conhece a história da colonização francesa de perto, nascido nas Ilhas Maurício, Sudhir Hazareesingh escreveu a alentada biografia de Toussaint, O Maior Revolucionário das Américas: A vida épica de Toussaint Loverture.

    A Guerra de independência do Haiti é gloriosa e influenciou o fim da escravidão no mundo moderno, serviu de exemplo e incentivo para Bolívar e criou teorias, conhecimento e alternativas de vida em sociedade. Foi temida, negada e combatida. Hegel não ousou citá-la, mas a estudou de perto e ao vivo (ver nesta Revista PUB Vergonha da Escravidão, que conta essa relação ambígua). Embora não fizesse parte da América hispânica, o Libertador do Haiti teve que lutar e vencer o exército espanhol, assim como todos Libertadores. Desde o início enfrentou também o exército inglês que não admitia um país negro, independente, ao lado da Jamaica, servindo como exemplo de luta e denunciando a imoralidade da escravidão. Desde o começo da guerra Toussaint L’Overture sabia que os opositores da liberdade no Haiti seriam os espanhóis, os ingleses e os franceses donos de terras na ilha, mas acreditava que a revolução francesa libertaria todos os oprimidos, inclusive os escravizados das colônias. Não foi assim, traído por Napoleão, teve que travar as mais intensas batalhas contra, exatamente, o exército francês, comandado diretamente pelo cunhado de Napoleão, General Leclerc, que sofreu duríssima derrota.

    Diferente de outros libertadores que tiveram o nem sempre discreto apoio da Inglaterra, Toussaint L’Overture impôs condição aos ingleses, porque só aceitaria eventual apoio se a Inglaterra provasse sua sinceridade e votasse uma lei de libertação de todos os seus escravos, incluindo a Jamaica, e se comprometesse, na mesma lei, a guerrear todas as potências que os mantivessem e os traficassem. A Inglaterra não aceitou e riu-se da proposta, se considerava muito forte para aceitar a condição e resolveu impor seu “apoio” à força, foi derrotada. Portanto, a libertação de Saint Dominique, Haiti, se deu sem qualquer interferência ou ajuda colonialista, foi construída pelo próprio povo, pelos ex-escravizados, mulheres e homens africanos sequestrados em suas terras de origem, seus filhos e filhas. O Haiti, como outras colônias das Antilhas, tiveram sua população indígena totalmente destruída e substituída por africanos escravizados. Os poucos indígenas sobreviventes da ilha foram submetidos a uma miscigenação forçada.

    Toussaint L’Overture foi o Libertador que sofreu a traição mais urdida, mais significativa e mais omitida pela história oficial. Não foi traído por seus pares, como Bolívar por Santander, San Martin e Artigas pelas autoridades independentistas argentinas, foi traído por quem impunha ao mundo uma concepção liberal de organização social. Foi pela crença na revolução francesa, pela crença na liberdade francesa. Como está muito bem contado no livro de Cyril James, Napoleão teve dúvidas se galonava L’Overture com os poderes de Estado e concedia relativa independência ao Haiti, mantendo-o como parte integrante da França, como desejava o Libertador, ou mantinha uma colônia escravocrata. Para a primeira opção necessitava um Toussaint L’Overture vivo e poderoso, para a segunda, o necessitava morto. Demonstra James, com muitos detalhes e documentos, que Napoleão tomou a decisão de matá-lo, por puro racismo, o considerou um inferior, não merecedor de galardões e insígnias francesas. Os ingleses o agradeceram por isso, temiam o Libertador.

    Chegando a França onde esperava selar acordo para o fim da escravidão e um Haiti independente mas integrante do território francês, L’Overture foi preso e encaminhado diretamente à prisão de Château de Joux, onde faleceu em 7 de abril de 1803. Napoleão imaginou que sua morte tornaria o Haiti presa fácil e a manutenção da colônia escravagista estaria garantida com a divisão dos haitianos. O estrategista Napoleão errou, os esperançosos ingleses também, a morte de Toussaint L’Overture significou o fortalecimento da luta pela liberdade, a total independência do Haiti em relação à França e a constituição do primeiro país livre da América Latina e Caribe, exemplo e incentivo para todos os outros libertadores. A violência e a destruição do Haiti somente se deu muito mais tarde, na metade do século XIX, com a conjunção de forças imperialistas de destruição, na mesma época da guerra suja contra o Paraguai.

    Toussaint L’Overture deve ser saudado, no momento dos 222 anos de sua traição e morte como um grande, como o maior revolucionário das Américas.

  • O tenor e o elefante

    O tenor e o elefante

    O Teatro Guaíra começou a ser edificado em 1952, naqueles raros momentos em que os governos conservadores pensam em cultura. Bento Munhoz da Rocha queria que o Estado tivesse um grande Teatro e uma imponente Biblioteca, por isso o Teatro Guaíra e a Biblioteca Pública do Paraná foram projetados e construídos. Seriam dois grandes edifícios de Curitiba, marcos da arquitetura e guardiões da cultura no Paraná. A Biblioteca foi construída em pouco tempo e inaugurada em 1954. O Teatro Guaíra, porém, levaria mais de 20 anos em lenta agonia construtiva, comprovando a relutância em investir em cultura. Mas Curitiba não ficou sem teatro, no mesmo ano que se inaugurava Biblioteca, inaugurou-se uma a primeira parte do Guaíra, com um pequeno auditório de 500 lugares, o Guairinha, que integrava os fundos do complexo arquitetônico e se mantém ativo guardando, ele mesmo, boas histórias de beleza, liberdade e resistência.

    Mas foi só em 1974 que o Teatro Guaíra, completo, foi inaugurado. O auditório principal, que homenageia o governador que o idealizou, é grandioso e ostenta as dimensões de sua grandiosidade com um palco de quase 55 metros por 20 de profundidade. Pode abrigar qualquer espetáculo, por grande que seja, para uma plateia de mais de 2.000 pessoas. A boca de cena se abre em 16 metros por 7,5 de altura. Com dimensões suficientes para um elefante aparecer de corpo inteiro, podendo ser visto de cima, de perfil ou de frente sem roubar a cena.

    Projeto do arquiteto Rubens Meister, entre os muitos corredores, coxias, guardas roupas, camarins diversos, previa um espaço interno para ser o camarim de elefante. Ainda que não sejam muitas as obras cênicas não circenses que se utilizam de elefantes, mas, pensando na possibilidade de montar Aída, de Verdi, não hesitou em projetar o camarim especial. É claro que se há um camarim de elefantes, a entrada dos artistas, os corredores, e o próprio palco tem que ter condições de trânsito e sustentação para ele. E assim o é, porque o arquiteto pensaria em cada detalhe. Aliás, justiça seja feita, cada detalhe é tão delicadamente pensado que uma conversa informal no palco pode ser ouvida na última fileira do último balcão.

    Como não são muito os elefantes contratados pelas companhias de teatro e os Circos preferem os espaços abertos sob coloridas e simbólicas lonas que podem ir e voltar no encantamento do povo, os administradores, logo depois da inauguração, consideraram que talvez fosse mais razoável fazer do camarim de elefante mais um auditório, pequeno é verdade, com modestos 68 lugares e chamado de mini auditório que foi inaugurado em agosto de 1975. O Teatro Guaíra já não dispunha, então, de um camarim de elefante, mas de três espaços cênicos.

    A vida seguiu com grandes montagens, brilhos e luzes. Até que, em 1994, a direção resolveu encenar Aída e o elefante seria de carne e osso. O elefante contratado como ator era uma fêmea, Mila e, dócil, nos ensaios cumprimentava as pessoas com balanços de tromba e desajeitados movimentos de corpo, entrava e saía do imponente edifício como se fosse sua casa, mas não tinha um camarim próprio, embora pudesse se exibir de corpo inteiro no palco. Quem a viu representando garante que estava feliz.

    Fora de cena o domador estava sempre ao lado de Mila e entre um amendoim e outro lhe acariciava a face com delicadeza. Os ensaios foram duros e o tenor tinha que se acostumar com Mila, entraria no palco em seu imenso dorso e de lá soltaria a potente voz, o domador ficaria na coxia e, diante de duas mil pessoas, o tenor teria que dominar a voz e controlar Mila. Tudo corria bem e a estreia se aproximava. O Teatro iluminaria as noites da Praça Santos Andrade.

    Tudo preparado para a estreia quando, quase seis horas da tarde, o telefone da sala do Procurador-Geral do Estado toca e do outro lado da linha o diretor-geral do Teatro Guaíra, indignado e aos berros, dizia que um juiz, acrescido de vários adjetivos, havia trocado o tenor. Como trocado o tenor? E o que um juiz tem a ver com isso? Calma, calma! Foi então que o diretor, com a voz empostada como cabia ao momento, leu a ordem judicial. Inacreditável, era uma liminar em Mandado de Segurança impetrado por um segundo tenor do Teatro Guaíra que afirmava ter ele o direito líquido e certo de se apresentar na estreia de Aída sobre o dorso de Mila. Faltavam três horas para as cortinas se abrirem e o diretor garantia que não ia permitir o espetáculo com um tenor sem ensaio, que nunca tinha subido num elefante embora, talvez, já tivesse participado da Aída. E a culpa seria do Poder Judiciário, gritava.

    O juiz era conhecido por suas decisões contra o Estado e o Teatro Guaíra é público, talvez tenha dado a decisão para estragar espetáculo, mas pode ter havido outros inconfessáveis motivos, o que nunca foi apurado. Naquele momento o que importava não eram os motivos do juiz mas qual tenor subiria ao dorso de Mila. O quê fazer? A primeira providência foi telefonar ao gabinete do Presidente do Tribunal de Justiça, único com competência legal para suspender ordens judicias tão rapidamente. Por sorte, às dezoito horas de sexta-feira ele ainda estava lá. A inusitada situação não foi fácil de ser relatada, ninguém podia acreditar nessa história, é verdade que um tenor tem direito de cantar, mas subir num elefante sem nenhum ensaio? E deixar a um juiz a escolha do tenor? E se Mila não gostasse da troca? E se ele levasse uma orelhada e caísse? E se pela novidade, desafinasse? Pensando bem, esses não eram argumentos jurídicos que pudessem comover um sisudo Desembargador Presidente. Mas comoveu! Nem precisou argumentar ausência de direito líquido e certo, bastou dizer que tinha gente, juiz inclusive, que queria estragar o brilho do espetáculo.

    O procurador-geral escreveu uma petição às pressas para que a liminar fosse suspensa em nome da ordem pública enquanto o Presidente esperava pacientemente e mobilizava seus assessores para proferir a decisão. Naquele tempo tudo era físico e tinha que ter protocolo, carimbo, papel timbrado, procuração e assinatura em tinta azul. Tudo pronto e conforme o combinado, era correr ao gabinete do Presidente, mas uma assustada assessora lembrou: procurador, o senhor precisa pegar seu paletó e sua gravata senão não entra no Tribunal, o porteiro não deixa! Na sexta-feira à tarde o relapso procurador não portava as vestes adequadas, nem as mantinha em gavetas ou espaldar de cadeiras. Não era possível que por falta de uns panos convencionais a estreia não ocorresse. Alguém, diligentemente, correu as salas da Procuradoria e encontrou um retardatário que foi imediatamente e sem opor grande resistência, expropriado das peças e a comitiva correu para a garagem. No carro, depois de apertar o nó da gravata, ao vestir o paletó, que não combinava nem com a camisa nem com a calça, o procurador percebeu que o retardatário era muitos números menores que ele, a manga chegava um pouco abaixo do cotovelo e faltariam pelo menos 30 centímetros para os botões se fecharem. Paciência, a fantasia era só para entrar no Tribunal e a elegância não constava do protocolo do porteiro.

    Passava das sete quando, afinal o Presidente assinou a decisão que logo foi carimbada, oficializada e enviada às pressas ao Teatro. Habemus spectaculum! Na sala do Presidente do Tribunal de Justiça, o procurador-geral fez um gesto brusco de agradecimento e o paletó descosturou atrás, de cima a baixo. O procurador retardatário, como compensação a sua generosidade, ganhou dois ingressos para assistir Aída e ver de perto a arte de Mila.

    Foi a primeira e última temporada de elefantes no Teatro Guaíra, mas os tenores voltaram muitas vezes à cena e nem precisaram de ordem judicial.

  • A colonia de pescadores

    A colonia de pescadores

    Quem inadvertidamente chegasse lá, caminhante perdido, explorador de novos caminhos ou simplesmente curioso, não seria um passante, por que lá era o fim da linha, a pequena e tortuosa estradinha não seguia adiante, a partir dali já o caminhante teria que se tornar navegante, mas, enfim, quem chegasse lá e perguntasse quanto tempo aquela gente estava ali, dificilmente receberia uma resposta precisa. Desde que nasci, se a referência fosse pessoal, desde de sempre, se a resposta fosse mais coletiva. O fato é que estavam lá, viviam lá e o lugar era de uma beleza tão deslumbrante que talvez nem fosse notada pelos moradores.

    O mar que se estendia adiante era a baia de Antonina com suas águas calmas e onduladas pela brisa, mas se podia ver, sem reconhecer exatamente o limite, a baia de Paranaguá, emoldurando as duas baías a Serra do Mar com seus domínios aflorando aqui e ali em ilhas, istmos e promontórios. Olhando com mais acuidade se nota o mangue que é onde a Serra do Mar de confunde com as águas, querendo ser água e as águas insistindo ser terra. Se a vegetação parece estar em dúvida sobre sua natureza aquática ou terrestre, os animais não, sabem exatamente os seus lugares. O guará voa, o caranguejo se entoca e os peixes nadam, acima das águas, se agarrando em ramos retorcidos e enfeitando a paisagem, as muitas cores de bromélias.

    A beleza deslumbrante e a facilidade de se esticar um asfalto, ou anti pó que seja, com dinheiro público, é claro, despertou a cobiça de sérios e honrados empreendedores. Quem terá vivido na região antes dos pescadores que dizem que sempre viveram ali? Há rastro humano, há sambaquis, enormes, cobertos de relva fina, visíveis e enigmáticos, empilhados conha a concha e que escondem mil mistérios em suas entranhas. Não precisa nem cavoucar para saber que estão ali, basta afastar a relva e se revelam amalgamados pelo tempo. Os sambaquis cercam o mangue e uma boa estrada que seja mais do que um caminho de pedestres precisa derrubá-los, cortá-los, mutilá-los, removê-los. Como dificuldades podem se tornar oportunidade, diz o empreendedor arguto, não se deve chamar os sambaquis por esse nome, deve ser tratado como um monte perdido e inútil de conchas velhas empilhados ao serviço do progresso e que, devidamente espalhados, servirá de base sólida para a estrada, como são centenas de quilômetros do litoral sul do Brasil, ganhando uma utilidade moderna e esquecendo para sempre seu passado e seus mistérios.

    A comunidade de pescadores nunca se preocupou com o precário caminho, nem com os sambaquis. Afinal, é tão fácil levar os peixes, caranguejos, ostras, camarões, mandioca e uma e outra fruta, banana quem sabe, ao cais de Antonina, ao Mercado, juntar uns trocados e comprar sal, açúcar, um pedaço de pano e uma panela de ferro, porque as de barro podem fazer, e, então, trazer de volta no mesmo barco. Porque então pensar em estradas para carro ou caminhão, se uma canoa ou uma bicicleta os pode levar e trazer até Antonina? Mas que não pensem que a dura vida da comunidade era triste nesse lugar encantado. Quem pode fazer canoa, com muito mais precisão e menos esforço fará uma rabeca. Tocá-la já é outra coisa, precisa de talento que nem sempre o esforço garante, mas que por certo o fandango desperta e anima. O talento sempre aparece nessas belas terras onde se avista águas serenas e a imensidão das Serras. O talento é primo do encanto e o que não falta nessa terra é o encanto de toda lua cheia. E se precisar demais incentivo, a cataia o dará, misturada ao aguardante puro destilado ali mesmo.

    Longe, muito longe e num tempo já perdido, homens de fala rebuscado entenderam que aquelas terras e mangues onde a vida pulsa para gentes plantas e bichos tem que ter nome na lei, formas e processos para serem usadas por gente. Aquelas terras eram e continuam sendo chamados de Terrenos de Marinha, propriedade da União Federal e passíveis de concessão a quem delas quiser tirar proveito econômico. Se peguntados, os pescadores não querem tirar proveito econômico daquela terra, no máximo uma mandioca, araçá e limão rosa, e a caxeta, é claro, porque o fandango tem que continuar. É claro que vão tirar proveito do guapuruvu imponente para fazer a próxima canoa, mas não entendem que seja um proveito econômico, pedem permissão ao guapuruvu e sabem que outros já estão crescidos e a caminho. Mas os senhores empreendedores tem outras ideias, além da estrada pública que já fornecerá boas razões e proveito econômicos, quanto valerá um lote no paraíso?

    Como o cinismo não tem limite, dirão que vão proteger o meio ambiente, será proibido cortar a caxeta e guapuruvu. Onde já se viu usar madeira para fazer rabeca e canoa, duas inutilidades para o mundo moderno? A tática é simples. Basta a Secretaria do Patrimônio da União conceder o domínio útil dessas terras para a realização de um grande empreendimento econômico que pode virar loteamento de luxo, resort ou até mesmo uma asseada marina aterrando o mangue sujo e de desagradável odor. As pessoas que porventura estiverem por lá, invasores de terra pública, encontrarão trabalho na cidade. Afinal, o nome disso é progresso, desenvolvimento, coisa que os mais antigos chamavam de melhoramento. Depois, verão como o mangue se torna um jardim de belas, coloridas e ordenadas flores, que nem precisam vir de longe, são dali mesmo, a começar pela estranha e cativante begônia maculata e as mais de mil espécies de orquídeas.

    Obtida a concessão, a parte mais fácil será tirar os invasores. Obtida a liminar na ação possessória bastaria ir até o local com o papel na mão e oferecer acordo, tudo se faria com gestos civilizados, isto é, pagando um valor para demover resistências, sem as melhorias da estrada cada lote nada vale. Alguns adestrados para serem gentis vão até a comunidade para fazer a oferta. Primeiro se escandalizaram com o número de famílias, eram mais de cem, segundo, com a negativa geral do acordo, não há lotes, dizem. Não era para ter tanta gente, desde o trapiche de Antonina se adivinhava umas dez famílias e pela humildade do trato não poderia haver dúvida na rendição, ledo engano, foi fácil resistir à compra, nenhuma das coisa solicitadas era mercadoria, nem gentes, nem terras, nem mangues. Os gentis sucumbiram, só restava a força bruta. Afinal para que serve a polícia e a decisão judicial?

    O cumprimento da decisão de despejo não era fácil, a Polícia tinha dificuldade de chegar e mais ainda de tirar as cem famílias. Nesse meio tempo as lideranças locais conversaram com sindicalistas e outras gentes da região que lhes indicaram um advogado popular para a defesa de direitos. Uma operação de guerra foi montada com máquinas de escrever, defesa copiada em mimeógrafo a tinta, com espaços para serem preenchidos à máquina, com cópia em papel carbono. Uma casa de amigo na Ponta da Pita foi usada como quartel general. Um fim de semana inteiro, uma longa, desorganizada mas obediente fila de pescadores e suas mulheres, com documentos na mão e muita conversa, se apinhava na casa simples que oferecia suco de frutas locais, limonada e água à vontade. Café só para os dois advogados e a advogada que trabalhavam incessantemente, os pescadores e as famílias tinham trazido lanche e, as vezes, algum pegava o barco e ia buscar mais comida para a fila. Ninguém arredou o pé até a última petição e as procurações terem sido assinadas, ordenadas, conferidas e grampeadas.

    Na segunda feira de manhã, quando foram apresentadas as mais de 120 contestações à ação de despejo o cartorário arregalou muito os olhos, ficou mais branco do que era usualmente e disse de uma forma atabalhoada e insegura: “Tenho que falar com o doutor juiz” e saiu tropeçando na mesa que sempre estivera ali. Demorou longos minutos e voltou com o carimbo na mão para receber os documentos. O promotor da comarca foi visto sorrateiramente num vão de porta, não queria deixar de ver a trinca de advogados. Ninguém poderia esperar que os pescadores contestassem a ação no último dia do prazo. O despacho do juiz declarando a revelia e retomada imediata da área por quem nunca tinha tido posse já estava pronto, com autorização para o uso de força policial, assinado e datado para o dia seguinte. O juiz não estava lá na segunda feira, nem estaria na terça, o cartorário tinha falado por telefone. A conversa entre o juiz, o cartorário e o empreendedores nunca se soube.

    Sem outra alternativa, o juiz marcou uma audiência para dali um mês. O Fórum de Antonina era muito pequeno para receber mais de duzentas pessoas interessadas em acompanhar a audiência pública. Na sala, a advogada e os dois advogados populares estavam sentados a um lado, cada um representando um terço dos contestantes em distribuição organizada. Do outro lada da mesa um jovem e inexperiente integrante de um dos maiores escritórios de advocacia de Curitiba, talvez estagiário, e seu representado, um senhor maduro, assustado com a quantidade de gente e que insistia diretamente com o juiz para chamar mais segurança. O juiz, visivelmente inquieto e contrariado, resolveu abrir a sessão, mas antes disse que não era possível fazer audiência com tanta gente, que era muito trabalho, e olhando diretamente ao jovem inexperiente advogado rico, disse que estava cansado e reclamou do salário, afirmando que até o consórcio do carro estava atrasado, e mostrou o carnê sem pudor. O jovem advogado ensaiou um gesto para receber o carnê, mas recolheu a mão, indeciso.

    Quando a audiência finalmente foi aberta, a advogada popular pediu a palavra para dizer que o juiz não havia se manifestado sobre a petição de mais de 120 partes para que fosse chamada a Secretaria do Patrimônio da União, proprietária da terra, e que, portanto, a audiência não poderia ser realizada. O juiz olhou com ódio primeiro para a advogada, depois para o jovem rico dizendo: “Você vê? Vamos ter que deslocar a competência para a Justiça Federal!” O jovem e inexperiente advocado não se moveu, sequer olhou para o juiz, já sabia da decisão. O juiz, sem se conter, bateu na mesa e disse: “Defiro! Está encerrada a audiência” e desapareceu por uma porta atrás de sua cadeira. Demorou alguns segundos para o lotado Fórum entender que a primeira batalha havia sido ganha. Urras, conversas altas, gritos, chapéus voando e outras travessuras apagavam os gritos do cartorário que dizia: “Senhores, este é um lugar sagrado, por favor!”

    Quando todos, alegres mas menos excitados iam saindo do Fórum ainda viram o luxuoso carro do jovem advogado virar a esquina. A pequena multidão foi direto para o trapiche pegar suas canoas, naquela noite haveria fandango, mesmo sendo terça feira. O trio de advogados populares sentou-se num bar do Mercado e pediu café com pastel, sabiam que luta ainda seria intensa.

    2024

    Explicação desnecessária: Essa história me foi contada por um rato de arquivos que, vasculhando os porões do Tribunal de Justiça do Paraná, entre muitos fardos de processos, encontrou a demanda do comerciante de Porto de Cima contra a Igreja. Teria lido a peça introdutória, mas não conseguiu mais localizar o velho processo quando solicitado por mim. Ficou apenas a memória daquela leitura, que me contou escandalizado.

  • ASAMBLEA EXTRAORDINARIA DE SOCIAS Y SOCIOS DE ILSA ESCOGE NUEVO DIRECTOR EJECUTIVO

    ASAMBLEA EXTRAORDINARIA DE SOCIAS Y SOCIOS DE ILSA ESCOGE NUEVO DIRECTOR EJECUTIVO

    El pasado viernes 11 de julio sesionó de manera extraordinaria la asamblea de socias y socios de ILSA. La Asamblea está integrada por 15 miembros, provenientes de la antigua junta directiva, activistas del movimiento social y de defensa de los derechos humanos, al igual que académicas, juristas e investigadores críticos.

    En la reunión se recibió el informe de la saliente directora ejecutiva, María Eugenia Ramírez Brisneda, quien ejerció el cargo el 12 de diciembre de 2018. Las socias y socios resaltaron el trabajo adelantado por María Eugenia durante su mandato y el esfuerzo que durante su vida ha desplegado en favor de las luchas de las mujeres, sus derechos y procesos organizativos.

    La asamblea designó a Freddy Ordóñez Gómez como nuevo director ejecutivo, quien ejerce funciones desde el pasado 11 de agosto. Freddy es un abogado cucuteño, víctima de desplazamiento forzado, que desde abril de 2003 está radicado en la ciudad de Bogotá. Cursó Derecho en la Universidad Nacional de Colombia, casa de estudios de la que obtuvo el título de Magister en Derecho con profundización en Derechos Humanos y DIH. Es también Especialista en Epistemologías del Sur y actualmente adelanta el doctorado en Derecho de la Universidad Libre.

    El director electo está vinculado a ILSA como parte del equipo de investigación desde 2007, y desde el 2017 hasta el 11 de julio fue presidente de su junta directiva. Es integrante del grupo de investigación Historia, Ambiente y Política (A1 Minciencias), del grupo de trabajo de Clacso Pensamientos jurídicos críticos y conflictos sociopolíticos, y del Centro de Pensamiento Amazonias (CEPAM). Es profesor de la maestría en Derechos Humanos y Gobernanza de la Universidad Cooperativa de Colombia (Pasto), ha ejercido como docente ocasional del pregrado en Derecho de la Universidad Nacional de Colombia y de posgrado en la Universidad Autónoma de Colombia, la Universidad Central y la Universidad de Los Llanos. Ha trabajado en diferentes entidades del sector público y en ONG, contando con una amplia experiencia en investigación sociojurídica y en temas de derechos humanos, así como en procesos de educación jurídica popular con diversos grupos poblacionales y sectores vulnerabilizados. Es autor de diferentes libros, capítulos de libros y artículos académicos. Dirige El Otro Derecho y es columnista de Ámbito Jurídico y de la revista Raya.

    Desde el área de comunicaciones expresamos a Freddy Ordóñez nuestro deseo sincero de que los espíritus del buen camino guíen su andar como nuevo director ejecutivo de ILSA.

  • Entrevista a Miembro de la GJN: Mayerly Díaz Castellanos, Instituto Latinoamericano para una Sociedad y un Derecho Alternativos (ILSA)

    Entrevista a Miembro de la GJN: Mayerly Díaz Castellanos, Instituto Latinoamericano para una Sociedad y un Derecho Alternativos (ILSA)

    Mayerly Díaz Castellanos es una abogada colombiana con un fuerte compromiso en la defensa de los derechos humanos, el ambiente y el feminismo popular. Desde el Instituto Latinoamericano para una Sociedad y un Derecho Alternativos (ILSA), ha trabajado por más de una década fortaleciendo comunidades, especialmente en territorios rurales y ambientalmente estratégicos como los páramos. Su mirada combina litigio, formación, comunicación e incidencia política desde y para las comunidades.

    ¿Te interesa la defensa de los derechos humanos y ambientales desde una perspectiva comunitaria y feminista? Sumérgete en la historia de Mayerly Díaz Castellanos, descubre las experiencias que la motivan y conoce las prácticas transformadoras que impulsa desde ILSA. ¡Lee la entrevista completa y encuentra inspiración para tus propias acciones!


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  • La pregunta desaparecida: un acercamiento a la reflexión sobre derecho y no-derecho en Oscar Correas

    La pregunta desaparecida: un acercamiento a la reflexión sobre derecho y no-derecho en Oscar Correas

    El pasado 27 de abril se conmemoraron cinco años del fallecimiento del profesor Oscar Correas, una de las figuras más influyentes de la crítica jurídica latinoamericana. Su legado intelectual se caracteriza por una lectura marxista del derecho, desde la cual articuló una visión materialista rigurosa y coherente. Aun cuando, desde finales del siglo XX, el proyecto neoliberal se había impuesto en gran parte de las universidades y facultades de derecho del continente, el profesor Correas continuaba defendiendo sus ideas. En ese escenario, no sólo mantuvo su enfoque crítico, sino que lo desarrolló aún más, afianzando una propuesta radical orientada a transformar la concepción hegemónica del derecho.

    Justamente, las recurrentes reflexiones frente a la concepción hegemónica del derecho, las cuales representaron uno de los aspectos centrales en la teoría crítica propuesta por el profesor Correas, le permitieron evidenciar que existe una pregunta fundamental que ha desaparecido de las agendas temáticas de muchas personas que se dedican al estudio del derecho.[1] Esta pregunta puede formularse de diversas maneras, pero, en esencia, plantea lo siguiente: ¿con qué derecho el derecho es “derecho”?[2] Es decir, ¿por qué ciertos sistemas normativos son considerados jurídicos mientras que otros no lo son?

    Aunque esta pregunta podría parecer elemental para iniciar los estudios de derecho, en la práctica suele pasar desapercibida. Así, muchas veces se enseña que, simplemente, el derecho es un sistema de normas que regula una sociedad y se da por sentado que ese sistema normativo dominante es el “jurídico”, es derecho, relegando a los demás al estatus de no-derecho. Sin embargo, como bien nos lo permiten señalar los trabajos del profesor Correas, esta no es una simple cuestión terminológica, sino un problema de poder y legitimación. El derecho, tal como se enseña y se reproduce en las universidades, no es una construcción neutral. Por el contrario, se trata de un conjunto normativo que ha alcanzado una posición dominante, imponiéndose como el único derecho posible o válido.

    Según el profesor Correas, la posición dominante de ese sistema normativo se ha conseguido a partir de una trampa que incluye dos momentos. “El primero consiste en producir una definición de la palabra ‘derecho’: discurso prescriptivo autorizado. En segundo momento, se adjudica el sentido así construido, a uno de los ordenes normativos existentes: el hegemónico; el cual, por esto, y sólo por eso queda bautizado como ‘jurídico’”.[3] Esta hegemonía invisibiliza otros órdenes normativos que, aunque organizados y coherentes –como los sistemas normativos indígenas, comunitarios o alternativos–, no son reconocidos como “derecho” por la teoría jurídica tradicional.

    De esta manera, el profesor Correas insistía en que la categorización entre derecho y no-derecho no es accidental. La teoría jurídica dominante se ha construido precisamente sobre la base de esa exclusión, legitimando un modelo de derecho estatal, formalista y positivista que niega su carácter político e histórico. El derecho hegemónico se presenta como neutral y objetivo –y se enseña así en muchas facultades de derecho–, cuando en realidad responde a intereses concretos y se sustenta en relaciones de poder.

    La crítica jurídica, entonces, no sólo pone en duda los contenidos del derecho, sino que cuestiona su propia definición y los criterios con los cuales algo se reconoce como jurídico. Así, al desnaturalizar el concepto mismo de derecho, el profesor Correas abre un espacio para pensar en múltiples formas de normatividad, y para repensar el papel del derecho en las luchas sociales. Reconocer la pluralidad jurídica es un primer paso hacia una concepción más democrática y menos excluyente del derecho, una que no reproduzca automáticamente la lógica del poder dominante.

    Para finalizar, es importante destacar que la obra del profesor Correas forma parte del legado vivo de las luchas y resistencias sociales del continente, y sus ideas persisten en quienes desafían el discurso jurídico dominante y trabajan por construir un mundo más justo.

    [1] CORREAS, Oscar (2010). Teoría del Derecho y Antropología Jurídica. Ciudad de México: Ediciones Coyoacán. 

    [2] CORREAS, Oscar (2004). Teoría del Derecho. Ciudad de México: Fontamara, p. 167.

    [3] CORREAS, Oscar (2004). Teoría del Derecho. Ciudad de México: Fontamara, pp. 183-184.

  • Derecho a la salud: Contexto, tensiones y reforma al sistema

    Derecho a la salud: Contexto, tensiones y reforma al sistema

    Desde las organizaciones convocantes, nos complace invitarles cordialmente a participar en el panel “Derecho a la Salud: Contexto, tensiones y reforma al sistema”, que se llevará a cabo el próximo 30 de mayo de 2025 a las 2:00 p. m en el auditorio de la UNAD, en Vélez, Santander.

    Este espacio contará con la intervención principal de Jennifer Cardona Malaver, enfermera con estudios de maestría en Salud Pública, integrante de la Coordinadora Nacional EnMovimiento y actual Coordinadora en Colombia del Movimiento para la Salud de los Pueblos. Su amplia experiencia en procesos sociales, comunitarios y en la defensa del derecho a la salud será clave para enriquecer este diálogo.

    El panel busca propiciar un espacio de concertación y análisis participativo sobre los contextos locales del sector salud, en especial aquellos que deben ser abordados en el marco de las tensiones actuales y el proceso de reforma al sistema y modelo de salud que demanda nuestra región y Colombia entera.

    ¡Les esperamos!

  • Roque Dalton: cincuenta años pronunciando su nombre

    Roque Dalton: cincuenta años pronunciando su nombre

    El pasado 14 de mayo se cumplieron noventa años del nacimiento de Roque Dalton y previamente, el 10 de este mes, se conmemoraron cinco décadas de su asesinato. La vida del intelectual y literato salvadoreño es un relato fantasioso, mágico, del que no solamente es el protagonista, sino el principal autor, relato que inicia antes de su nacimiento y va mucho más allá de su vil asesinato. Luis Alvarenga, su biógrafo, recuerda como él afirmaba ser descendiente de Bill, Bob, Emmett y Grat Dalton, Los hermanos Dalton, unos pistoleros que asaltaban trenes en el Viejo Oeste norteamericano a finales del siglo XIX. A su padre, Winnal y a su tío Frank Dalton, Roque los describe en Dalton y Cía. como “dos forajidos simpáticos que, a fuerza de ingenio, van a parar a Guatemala huyendo de Pancho Villa, a quien estafaron con una transacción de armas, y luego a El Salvador”. 

    Su vida, también es un insólito relato: “cada vez que te arrancaban del mundo / no había calabozo que te viniera bien / asomabas el alma por entre los barrotes / y no bien los barrotes se aflojaban turbados / aprovechabas para librar el cuerpo”, escribió Mario Benedetti, a propósito del fantástico escape del penal de Cojutepeque. Roque fue capturado en enero de 1964 y logró fugarse el domingo 25 de octubre de ese año, día de Cristo Rey, tras el derrumbe de una pared de su celda, tarea que fue facilitada por un temblor. Sale de El Salvador rumbo a México y después de pasar dificultades llega a Cuba.

    Incluso, los textos de Roque en los que habla sobre su muerte, están llenos de belleza: “Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre / Porque se detendría la muerte y el reposo / […]  No dejes que tus labios hallen mis once letras / Tengo sueño, he amado, he ganado el silencio” se lee en Alta hora de la noche. Narraciones que son igualmente maravillosas cuando abordan la muerte de la amada: “[…] El día en que te mueras te enterraré desnuda / para que limpio sea tu reparto en la tierra, / para poder besarte la piel en los caminos, / trenzarte en cada río los cabellos dispersos”. También en los textos que abordan la muerte se encuentra otro rasgo de la poesía de Dalton: su irreverencia. Como cuando afirma, “Yo sería un gran muerto” o al expresar “los muertos están cada día más indóciles […] hoy se ponen irónicos”. Esa irreverencia no es solo un rasgo de su obra literaria, también lo es de su obra política e intelectual.

    La vida del ciervo perseguido, como sería descrito Roque a sus 22 años por Alberto Ordóñez Argüello, es una constante narración poética y política, orientada hacia la liberación, lo que lo hacen un autor en el que la literatura va unida a una explícita visión de su época, no se puede escindir a Dalton en dos partes contrapuestas, afirma, con razón, Jaime Barba. 

    Dejando de lado temas biográficos, es importante exponer tres aspectos de lo que sería la poesía para nuestro autor y dos precisiones sobre su obra. El primero de los aspectos, es que Dalton asume que el contenido ideológico y la trascendencia social de su obra poética está determinada fundamentalmente por dos hechos extremos: el de su larga y profunda formación burguesa (estudió en colegios salvadoreños de élite) y el de la militancia comunista. 

    Un segundo atributo, es la fidelidad que el poeta debe tener con la poesía, esto es con la belleza. La belleza a la que alude Dalton cuando aborda lo bello, al hablar de la belleza en la obra poética, no es una referencia que abandona los territorios de la forma, en tanto la forma y el contenido “componen la unidad inseparable que configura la obra de arte”. Por ello, dice Roque, “que la belleza es cuestión de la esencia misma de la poesía”, considerando que “el concepto de la belleza y de lo bello como realidades culturales dotadas de ámbito histórico y de raíz social”.

    Y, un tercer elemento, son las profundas conexiones entre militancia, vida y poesía, esto es, la existencia de unos fuertes “vasos comunicantes entre vida y poesía, entre ética y política, entre literatura y militancia, entre humanismo y poética, que hacen de Dalton un autor de suma complejidad”. Como indicamos en otro texto, el salvadoreño, de acuerdo con Alvarenga, “se proclama convencido de que él, en lo personal, no podría escribir poesía lejos del ámbito de la política revolucionaria. Puede decirse que concibe a la literatura como algo que tendrá legitimidad en la sola medida en que contribuya a un proyecto de liberación nacional”. De allí que Roque aporta, de una parte, la crítica a la poesía, al lenguaje y al intelectual tradicional; y de otra, la posibilidad de identificación del sujeto de cambio, las clases explotadas, los ofendidos.

    Ahora bien, la primera precisión es la amplitud temática de su obra, que abarca diferentes asuntos, de los que Roque es testigo y coautor, como lo expuso en la nota introductoria a su antología personal, su poesía muestra cómo vio “el amor, la lucha, la ridiculez de la burguesía, la tierna mitología de sus padres, sus propias dudas, las cárceles, la proximidad de la muerte, las sutilezas conceptuales de la lucha ideológica, el diálogo, el país enajenado, el placer, las lágrimas, la esperanza férrea”, las cuales presentan una “visión múltiple, diversificada, pero siempre parcial, que cobrará su auténtico sentido solo en el seno de la lucha práctica por la liberación de nuestros pueblos”.

    La segunda precisión tiene que ver con un elemento que se destaca siempre de su vida y obra, el humor. Al decir de Eduardo Galeano, “la poesía de Roque era como él, cariñosa, jodona y peleadora”, pero, como advierte Mario Benedetti, el humor de su poesía no debe entenderse de forma superficial, sino como un estupendo fijador de ideas rigurosas y profundamente enraizadas a su conciencia. De esta forma el humor es “un instrumento literario que realza y afiligrana sus temas cardinales”.

    Han pasado cincuenta años desde aquel 10 de mayo de 1975, desde entonces hemos pronunciado sílabas extrañas, pero también las once letras de su nombre. El proyecto estético-político del salvadoreño tiene plena vigencia, existe hoy todavía la necesidad de expresar toda la vida en la poesía y de integrar la estética en la lucha emancipatoria, siendo entonces Roque Dalton un interlocutor necesario para nuestra América. El poeta tras su muerte sigue indócil, irónico, sus venas no terminaron con él y su sangre bulle en la sangre de todos los que luchan, de todos los ofendidos, a quienes llegará su turno.

    FUENTES CONSULTADAS

    ALONSO, Aurelio; & VALMAÑA, Sandra (sel.). Materiales de la revista Casa de las Américas de/sobre Roque Dalton. La Habana: Casa de Las Américas, 2010.

    ALVARENGA, Luis. El ciervo perseguido. Vida y obra de Roque Dalton. Tenerife: Baile del Sol, 2021.

    DALTON, Roque. El turno del ofendido. China: Ocean Sur, 2015.

    DALTON, Roque. Poesía escogida. Antología personal. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 2016.

  • Una reforma constitucional para el campo: el Congreso inicia el debate sobre las semillas genéticamente modificadas

    Una reforma constitucional para el campo: el Congreso inicia el debate sobre las semillas genéticamente modificadas

    El 25 de febrero de este año se radicó en la Cámara de Representantes el Proyecto de Acto Legislativo (PAL) 515 de 2025, el cual propone modificar el artículo 81 de la Constitución Política de Colombia para prohibir el ingreso, producción, comercialización y exportación de semillas genéticamente modificadas. El propósito de este PAL es claro: proteger el medio ambiente y garantizar el derecho de las comunidades rurales a sus bienes comunes y a una alimentación sana. 

    Aunque el PAL apenas inicia su camino legislativo, el pasado 25 de abril recibió informe de ponencia positiva para dar el primer de ocho debates que se necesitan para su aprobación. De esta manera, vale la pena celebrar que, una vez más, se ha abierto una discusión urgente y necesaria sobre el rumbo que debe tomar la política agrícola del país, pues durante décadas se nos vendió la biotecnología agrícola como la gran solución al hambre global. Sin embargo, la evidencia ha desmentido esta narrativa.

    Lejos de erradicar el hambre, los cultivos genéticamente modificados han servido más como herramienta de acumulación para las empresas que controlan las patentes que como mecanismo de justicia alimentaria. “La mayor parte de estas innovaciones tienen el propósito de incrementar las ganancias de las empresas que poseen las patentes”. Y mientras tanto, seguimos viendo cómo millones pasan hambre, no por falta de alimentos, sino por problemas estructurales de desigualdad y pobreza.

    Como lo señalaron hace algunos años Xavier Montagut y Jordi Gascón (2014), una tercera parte de los alimentos producidos en el mundo no llegan a ser consumidos. Esto evidencia que el problema no es la escasez, sino el modelo. Un modelo que ha facilitado la concentración del poder agroindustrial en manos de unas pocas corporaciones, y que ha desplazado a los pequeños productores mediante la imposición de semillas patentadas, sistemas de cultivo costosos y la pérdida progresiva de prácticas tradicionales. 

    No obstante, el impacto no solo es económico, también es cultural, ecológico y político. La dependencia de paquetes tecnológicos, pesticidas, fertilizantes y sistemas de riego intensivo ha borrado siglos de conocimientos indígenas, afrodescendientes y campesinos, reemplazándolos con prácticas que uniforman la vida rural en función del rendimiento comercial. Así, muchas comunidades rurales necesitan, para cultivar, acceder obligatoriamente a las semillas que son suministradas exclusivamente por las agroempresas transnacionales. Esto no es libertad de elección, sino una coerción disfrazada de innovación.

    En ese sentido, el derecho a la autonomía –como lo expresó la Corte Constitucional en su Sentencia C-336 de 2008– protege la posibilidad de cada persona de autodeterminar su forma de vida, sin presiones ni imposiciones externas. El avance de las semillas genéticamente modificadas ha hecho exactamente lo contrario para muchas comunidades rurales, ya que ha limitado su capacidad de decidir cómo producir, qué sembrar y qué tipo de relación quieren tener con la tierra.

    Por todo esto, el PAL 515 de 2025 no debería verse como una cruzada anticientífica, sino como un acto de justicia social, ambiental y cultural. Es una oportunidad para repensar el modelo agrícola y devolverle la voz a quienes han sido sistemáticamente excluidos por las lógicas del mercado global.

  • Occidente no es ciego, pero no ve

    Occidente no es ciego, pero no ve

    He escrito varios textos sobre la sociedad de transición en la que nos encontramos. Siempre que lo hago me viene a la mente el famoso pensamiento de Gramsci: ni lo viejo ha muerto del todo ni lo nuevo se ha afirmado del todo; la transición es una época de fenómenos mórbidos (que algunos han traducido como monstruos). Lo que está ocurriendo en el mundo me hace dudar de que el concepto de transición siga siendo útil para caracterizar nuestro tiempo. Cada vez más convencido, pienso que si hay que recurrir a manifestaciones célebres y sucintas de nuestra condición, la mejor elección es el aguafuerte de Goya de 1799, El sueño de la razón produce monstruos. En lugar de la metáfora del movimiento, la metáfora de la condición.

    Desde el comienzo de la guerra en Ucrania, he coincidido con los análisis de Jeffrey Sachs (JS) e incluso hemos intercambiado mensajes sobre nuestras convergencias. En un texto publicado el 11 de abril en OtherNews, titulado «Giving Birth to the New International Order», JS utiliza el concepto de transición para caracterizar nuestro tiempo: de un mundo unipolar dominado por Occidente desde el siglo XV (en los últimos cien años, por Estados Unidos) a un mundo multipolar centrado en Asia, África y América Latina. Su propuesta central para asegurar esta transición radica en el ascenso de India (que compara favorablemente con China) y la conversión geopolítica de este ascenso en la reforma del Consejo de Seguridad de la ONU con la concesión de la condición de miembro permanente a India.

    No estoy en desacuerdo con la propuesta de JS, aunque es problemático elogiar a India en el peor momento de su vida democrática gracias al hinduismo político que convierte al 20% de la población (musulmanes) en ciudadanos de segunda clase. Discrepo, sin embargo, de la importancia que JS concede a su propuesta. Su propuesta se basa en dos premisas desgraciadamente falsas: que la ONU sigue existiendo con cierta eficacia; y que existe un orden mundial unipolar. Quizá desesperadamente, JS sigue creyendo en el papel internacional de la ONU. ¿Es posible creer en la ONU después del genocidio de Gaza que se retransmitió en directo todos los días y a todo el mundo durante más de un año? ¿Es posible creer en la ONU después de todas las mentiras toleradas en los Balcanes, Irak, Siria, Libia, Yemen, Afganistán y Ucrania? Señalemos dos hechos trágicos: todas esas mentiras fueron denunciadas de forma creíble en el momento en que se hicieron públicas, y quienes las denunciaron sufrieron duras consecuencias: silenciamiento, deportación, persecución mediática y judicial; todas esas mentiras fueron confirmadas como tales años después, a menudo por las agencias que las propagaron o por sus portavoces, ya fueran el New York Times o el Washington Post, y por la inmensa cámara de eco que poseen y retransmiten a los medios hegemónicos de todo el mundo. Nunca se pidió perdón a los que tenían razón cuando estaba prohibido, ni se compensó a los pueblos destruidos por actos de agresión basados en mentiras. ¿Alguien recuerda que Libia tenía uno de los mejores servicios de sanidad pública del mundo?

    La segunda premisa es que existe un orden mundial unipolar. No puedo entrar aquí en el debate sobre si el orden mundial era unipolar incluso en la época del bloque soviético. En cualquier caso, existió durante un tiempo. Por ejemplo, existía cuando Narendra Modi fue expulsado de Estados Unidos en 2005 por violaciones de los derechos humanos (la masacre de islamistas en Gujarat en 2002). Pero, ¿existe hoy, cuando un criminal de guerra es ovacionado por el Congreso estadounidense? ¿No se trata más bien de un desorden mundial que puede considerarse unipolar sólo porque el país con más poder es el que causa más desorden? ¿Es posible creer lo que se dice hoy de China si lo que se decía de ella hace sólo cinco años era cierto (aunque entre bastidores hacía tiempo que se preparaba lo que ahora aflora a la superficie)? ¿Es posible creer en la solidez del orden unipolar basado en la dicotomía democracia/autocracia cuando los «mejores amigos» del presidente del país democrático más poderoso son todos autócratas? El libro de jugadas que sigue la clase política estadounidense desde hace algunos años (especialmente desde el 11de septiembre de 2001) se basa en la idea de dominación imperial y no en la idea de orden mundial. Basta con leer el “Proyecto para el Nuevo Siglo Americano” o la “Doctrina Wolfowitz”, donde queda claro que EEUU debe actuar de forma independiente en la escena internacional siempre que «no se pueda orquestar una acción colectiva». No se trata de un principio de orden. Es un principio de desorden.

    La sociología de las ausencias: el sueño de la razón

    A pesar de toda la clarividencia de JS, su análisis y sus propuestas producen dos ausencias, dos realidades que, aunque existen, se producen como inexistentes y como tales ya no pueden contribuir a ningún diagnóstico o solución. La inexistencia de tales realidades no es el resultado de un acto de voluntad por parte del analista. Proviene de los presupuestos epistemológicos del análisis. Proviene del sueño de la razón. El problema de Occidente no reside tanto en el estado al que ha conducido al mundo, sino en el epistemicidio que ha provocado a lo largo de su trayectoria histórica, es decir, en los conocimientos y experiencias del mundo que ha destruido activamente para imponer su dominación y neutralizar cualquier resistencia. Esta destrucción no ha sido sólo de cuerpos y modos de vida. Ha sido también la destrucción de conocimientos, sabiduría y ética, de formas de convivencia entre personas y naciones, de culturas de relación con la naturaleza, con los vivos y los muertos, con el tiempo y el espacio. Esta destrucción multifacética ha producido una forma específica de ceguera que consiste en mirar sin ver, explicar sin comprender, observar sin saber que no se puede observar sin ser observado. Entre otras muchas, distingo dos ausencias: lo diferente/inútil más allá del amigo/enemigo; vivir y dejar vivir más allá del orden y el desorden.

    Lo diferente y lo inútil

    El colonialismo y el capitalismo son las formas gemelas de la dominación moderna. Ambas se basan en lógicas jerárquicas: superior/inferior, propietario/no propietario. En ambos casos, la primera categoría determina la segunda. El inferior sólo es inferior a la luz de los intereses del superior; puede ser superior a la luz de muchos otros criterios, pero esto es irrelevante para el superior; el propietario define lo que tiene valor (material o inmaterial) y quién lo posee; el no-propietario puede poseer muchas cosas que no tienen valor para el propietario y, por tanto, son irrelevantes o inexistentes. Ambas lógicas están entrelazadas, aunque revelan diferentes caras de la dominación. Ser superior sin tener bienes valiosos es una contradicción, un oxímoron. Estas dos lógicas han creado dos tipos dicotómicos de relaciones sociales dominantes: el útil y el perjudicial; el amigo y el enemigo. El primer tipo fue bien teorizado por Jeremy Bentham, el segundo por Carl Schmitt.

    El pensamiento capitalista colonial occidental ha entrenado sistemáticamente a los seres humanos para no reconocer la importancia de lo diferente y lo inútil porque no encajan en ninguna de las dos lógicas jerárquicas. Por ello, los ha ignorado o relegado a un ámbito sobrante y no peligroso: el arte. Les ha dado el aura de lo innecesario.

    Vivir y dejar vivir

    Las dos lógicas jerárquicas del colonialismo y el capitalismo antes mencionadas han condicionado la vida y la muerte desde el siglo XV. Como la vida que merecía ser protegida era la de los superiores y de los propietarios, y como la inmensa mayoría de la población mundial no era ni lo uno ni lo otro, la era moderna estuvo dominada por la experiencia de la muerte e incluso por el espectáculo de la muerte. La muerte no sólo se abatió sobre los seres humanos inferiores y no propietarios, sino sobre todos los seres vivos: la naturaleza en general. La muerte de ríos, montañas y selvas donde los superiores podían acumular su propiedad de preciosos recursos naturales estaba teológica, ética, científica y, sobre todo, económicamente justificada. Así es como hemos llegado al momento de colapso ecológico en el que nos encontramos. La limpieza étnica de Gaza no es más que el episodio más reciente y atroz de una larga historia de limpieza etno-social-natural de seres humanos, subhumanos y no humanos.

    Un orden mundial, unipolar o multipolar, basado en las mismas premisas epistémicas y éticas que han dominado desde el siglo XV, no hará nada para que triunfe el principio de vivir y dejar vivir.

    Conclusión

    La transición de un mundo unipolar a un mundo multipolar no es buena ni mala en sí misma. La verdadera alternativa consiste en ampliar los espacios de la diferencia y la inutilidad como valores civilizadores: la diferencia como diversidad, la inutilidad como utilidad-otra. La verdadera alternativa consiste en valorizar el valor de la vida, un valor que sólo puede respetarse viviendo y dejando vivir.

    Tras cinco siglos de adoctrinamiento cultural, epistémico y ético, tengo serias dudas de que el pensamiento occidental pueda concebir o protagonizar la creación de un mundo multipolar. Nunca sabrá ser uno inter pares. Es más, los valores de lo diferente y lo inútil, de vivir y dejar vivir, están mucho más presentes en el pensamiento originario de las regiones del mundo en las que JS deposita alguna esperanza -Asia, África y América Latina- que en el pensamiento dominante del mundo occidental. Este hecho en sí mismo no es ninguna garantía, ya que tras cinco siglos de dominación global, el pensamiento occidental está insidiosamente presente sobre todo en las élites de los países de estas regiones, las élites que muy probablemente serán las que formulen el nuevo (viejo) mundo multipolar. Por eso, para mí, las clases explotadas y oprimidas de esas regiones son las que más pueden hacer para combatir el epistemicidio multisecular. Lo harán en la medida en que recurran a su experiencia multisecular. Esa experiencia siempre ha oscilado entre la guerra y la revolución. Hoy, mientras caminamos sonámbulos hacia una Tercera Guerra Mundial (si es que no estamos ya en ella), tal vez deberíamos revisar los conceptos de revolución y liberación en nuevos términos. Sólo así la razón despertará del sueño al que la han condenado el capitalismo y el colonialismo.